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Praia de Naufragados - De barco ou na mata, uma aventura
Não fossem os canhões e os restos dos prédios, seria difícil imaginar toda essa beligerância em uma praia tão sossegada, a começar pela dificuldade do acesso. Há três modos de chegar na praia. O caminho mais comprido é a partir da Solidão, passando pelo Saquinho e depois um caminho extenso pelo costão e pela montanha, que podem totalizar até quatro horas andando. Outro jeito é ir num dos barcos que saem da Caieira da Barra do Sul. Esse transporte leva cerca de 10 minutos e geralmente é utilizado na volta, por visitantes que, antes de caminhar até a praia, marcam com um dos barqueiros que atuam lá.

O mais utilizado, entretanto, é a picada que sai também da Caieira da Barra do Sul, próximo à pequena Praia do Seu Norberto. É um caminho que começa com um aclive um pouco acentuado, mas na maior parte é quase plano, com bastante sombra e não muito puxado, totalizando cerca de uma hora de caminhada. Vários trechos são de terra batida e podem ficar escorregadios, especialmente em dias seguintes a chuvas. Em alguns pontos há córregos e ruínas de antigos engenhos de farinha que haviam ali.

À medida em que a praia fica mais próxima, começam a pipocar algumas casas de moradores. Oscar José Pereira e Mercedes Benta Pereira estão lá há 7 anos. “Depois que os filhos casaram, viemos descansar aqui. Antes de construir a casa, quase não vínhamos porque não tínhamos onde ficar”, conta. Hoje, mesmo sem rede elétrica e telefone, ficam por ali até dois meses diretos.

A praia é uma enseada de 1,5 quilômetro de extensão, revestida por areia fina e branca, emoldurada por dois costões rochosos e banhada por um mar cristalino de água azul-esverdeada, com ondas que variam de moderadas a fortes, conforme as marés e os ventos. Como se não fosse suficiente para tornar irrestível o convite a um banho de mar, o visitante que aceitá-lo tem ainda a companhia de cardumes de minúsculos peixes, que não se acanham em nadar até bem perto da areia.

Enseada, costões, ilhas, morros, canal e peixes. Com todas essas condições, era inevitável que o local tornasse-se uma colônia de pesca e foi exatamente o que aconteceu. Ali funciona até hoje uma das colônias mais antigas da Ilha, fundada há mais de 200 anos. Flávio Argino Martins, 50 anos, conhecido na praia desde criança como Cacau, criou-se em Naufragados, onde começou a trabalhar há 40 anos, como empregado de Seu Romalino, que comprava os peixes dali, especialmente a tainha. Os compradores de peixe da região, que, por isso, recebiam preferência dos pescadores, eram conhecidos como pombeiros.

Apesar de conhecer Naufragados há 40 anos, Cacau mudou-se do Ribeirão da Ilha para lá há 22, desde que comprou o ponto de pesca do local, onde cria seus cinco filhos. Hoje, além de uma padaria e uma peixaria no Ribeirão, mantém um restaurante na praia. “Ele é quem mais ajuda o pessoal aqui da praia”, diz Roberto Orlando Pereira, o Del, 45 anos, nativo do Saco dos Limões, morador de Naufragados há 27.

Eles contam que, de oito anos para cá, a praia passou a ser mais procurada por visitantes e veranistas. “Os barraqueiros fazem muita sujeira, mas assim é melhor para quem tem comércio. Hoje a praia tem mais recursos e muitas pessoas que se mudaram daqui estão voltando”, explica Cacau. Um dos que pretende tomar o rumo de volta é Ademar Alarício do Espírito Santo, 36 anos, o Mazinho. Ele nasceu lá, mas, aos 11 anos, quando concluiu o curso primário, precisou mudar-se de lá para continuar os estudos.

Os moradores da área deram nome aos dois costões. O da direita, claro, é o Costão do Farol. O da esquerda é o do Frade. Como se não fosse suficiente, cada uma das pedras que os compõem também tem sua própria denominação. Há a pedra Mata-Fome, a Lavador, a Maria Gorda e muitas outras. No Costão do Farol, chama a atenção uma pedra em com a superfície arredondada, como se fosse um prato. Há quem atribua o trabalho a povos indígenas, que a utilizariam exatamente para esse fim. Mazinho acredita na ação das ondas e do vento sobre as rochas, mas conta que vários dos moradores não têm dúvidas: ali seria o local em que Nossa Senhora pisou e fez um prato para alimentar o Menino Jesus.

Crendices à parte, o mais difícil de acreditar nisso tudo é que alguém que venha a Naufragados não queira voltar sempre que puder.

Fonte: Jornal Diário Catarinense, em 26/02/2002
 
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