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Lagoinha do Leste - Casa no Parque da Lagoinha vira polêmica
Floram avalia o que fazer com a construção, erguida há 18 anos pelo ermitão Tibúrcio Manoel Duarte

Celso Martins

A Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) ainda não sabe o que vai fazer com a casa deixada pelo ermitão Tibúrcio Manoel Duarte no interior do Parque da Lagoinha do Leste, entre as praias do Pântano do Sul e Armação, no Sul da Ilha de Santa Catarina. Erguida há cerca de 18 anos com paredes de argila amarela e garrafões de vinho recolhidos nas imediações, seu destino acabou se transformando em polêmica, depois que o chefe de fiscalização da Floram, Josino dos Santos, falou em "demolição".

Quando foi criada a unidade de conservação em 1992, apenas duas pessoas habitavam a área protegida, Tibúrcio e outro pescador, Valdir Staenmitz. Alguns anos depois outros cerca de 14 barracos foram erguidos e depois desmontados por fiscais da Floram. "Vamos demolir antes que alguém ocupe", garantiu Josino ontem de manhã. Essa informação revoltou os freqüentadores da praia.

"Essa casa sempre foi uma fonte de refúgio e uma segurança para quem acampa na Lagoinha", diz a estudante Karina Damiani, residente em Florianópolis, enquanto lava alguns pratos. "Não deveriam demolir", assinala. "Essa casa se transformou num patrimônio, numa característica da Lagoinha", acrescenta Mariléia Scul, estudante de naturologia. À medida que a "a notícia da demolição" se espalhou pela praia, outros depoimentos em defesa da edificação foram surgindo.

O guardador de carros Alexandre Silva lembra que "a foto dessa casa está na Internet, saiu estampada num cartão telefônico e é única no mundo", assegura, enquanto um colega seu acrescenta: "Muitas pessoas que vem de fora, até de outros países, costumam posar na frente da casa para levar a recordação". Anderson de Oliveira, residente em Forquilhinha (São José), estava deixando o local após acampar alguns dias e levou um susto ao saber da idéia de derrubada na casa. "Não se faz isso com um patrimônio".

Esses depoimentos foram colhidos de manhã. À tarde a assessoria de comunicação da Floram garantiu que ainda não foi tomada uma decisão sobre o futuro da edificação. "Num primeiro momento se pensou em demolir, mas a casa tem valor porque foi feita com material reciclado", observa a jornalista Marta Scherer. O diretor de Operações da Floram, Edelberth Adam, acha possível usar o local como base para o serviço de fiscalização do órgão, responsável pela manutenção do Parque da Lagoinha do Leste.

Morte

O morador e construtor da casa, Tibúrcio Duarte, faleceu possivelmente na última quinta-feira, mas seu corpo só foi localizado no último sábado, transportado da praia da Lagoinha do Leste de helicóptero. "Foi suicídio por enforcamento", confirma o diretor do Instituto Médico Legal, Celito Cordioli. "Não havia nenhuma marca de violência e a casa estava fechada por dentro", acrescenta. O aparecimento de um forte odor nas imediações da residência alertou alguns freqüentadores da praia, que avisaram a Polícia Militar.

Nascido em Rio Vermelho (Florianópolis) há 52 anos, Tibúrcio se estabeleceu na Lagoinha do Leste por volta de 1980, depois de sofrer um acidente automobilístico que atingiu a perna. "Ele era pintor de paredes e com esse problema não podia trabalhar, então ele veio para cá", diz seu amigo de infância, Moacir Jorge, residente no Saco dos Limões, na Capital.

"O Tibúrcio estava em depressão por causa de uma namorada, uma estudante com 23 anos", revela Moacir, uma das últimas pessoas a conversar com o ermitão na quarta-feira passada. "Ele estava pensando em se afastar daqui uns dois anos e me alugou a casa por R$ 150,00, um preço simbólico, durante todo esse tempo. Só me pediu que nunca deixasse de alimentar as galinhas".

Ontem de manhã Moacir comprou dois quilos de milho e enfrentou uma trilha com cerca de 4,6 quilômetros morro abaixo e acima, ida e volta, para "cumprir a promessa que fiz". Outro objetivo do deslocamento foi "começar a usufruir" os direitos do aluguel, mas teve uma decepção: a porta estava fechada com corrente e um novo cadeado. "Não tenho como entrar, mas vou falar com a família dele para saber dessa situação e continuar a alimentar as galinhas".


Saiba mais

Unidade
- Parque Municipal da Lagoinha do Leste

Criação
- Lei 4701/92

Área
- 480,5 hectares

Praia
- 1.250 metros de extensão

Atrativos
- Mata atlântica, restingas, rio que desemboca no mar, fauna e paisagem natural.

Distância
- 34 quilômetros do Centro de Florianópolis

Acesso
- A pé, partindo do Pântano do Sul (caminho mais curto) ou da Armação. O trajeto pelo Pântano do Sul está sinalizado e há um mirante de observação do cenário natural do alto do morro.

Dicas
- Leve sue próprio lanche já que o local não é urbanizado e você não vai encontrar nada para comprar.
- Uma regra básica do lugar - que infelizmente não é seguida por todos - é trazer de volta todo o lixo que você produzir.
- Levar seu suprimento de água também é bastante recomendável, apesar de que existe água potável no local, principalmente se houver chovido alguns dias antes.
- Os preparativos devem incluir também um bom par de tênis, roupas leves, chapéu e protetor solar.
- Faça o passeio sempre em grupos.

Fonte: Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram)

Publicado: Jornal A Notícia, em 15/10/2002
 
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