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Praia do Campeche - Como vivia o piloto-escritor Saint-Exupéry no Brasil | Praia do Campeche - Como vivia o piloto-escritor Saint-Exupéry no Brasil |
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Morava em um alojamento no bairro do Campeche, em Florianópolis,
onde havia um campo de pouso; pescava com Manuel Inácio,
o Deca, e ia a bailes no Lira Tênis Clube. Os moradores
o tratavam de Zé Perri O centenário de nascimento de um francês mundialmente famoso, comemorado em junho, terá sabor especial para um pacato morador do Campeche, uma praia ao sul da Ilha de Santa Catarina. Getúlio Manoel Inácio, um aposentado de 48 anos que gosta de pescar, tem muitos motivos para interessar-se por Antoine de Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe, morto aos 44 anos durante a Segunda Guerra Mundial. Afinal, Getúlio é um sub-oficial da reserva da Força Aérea Brasileira, e Saint-Exupéry, além de escritor, foi um importante aviador. Mas a principal razão é que seu pai, Manoel Rafael Inácio, fez-se amigo de Exupéry durante as passagens deste por Florianópolis, entre 1926 e 1931, por conta do trabalho como piloto da companhia aérea Latècoére (hoje Air France). Naquela época, os aviões tinham pouca autonomia de vôo e as dunas gramadas do Campeche eram pouso obrigatório das linhas que transportavam correio aéreo entre a Europa e Buenos Aires. As paradas serviam para revisar e reabastecer as aeronaves e para que os pilotos descansassem. Algumas vezes, chegavam a passar dias na praia catarinense. Assim nasceu uma duradoura amizade entre o pescador Manoel Inácio, conhecido como Deca, e Saint-Exupéry, chamado de “Zé Perri” por ele e os outros moradores do Campeche, que não conseguiam pronunciar o nome francês. Viveram bons momentos juntos. Deca tinha uns 20 anos e Exupéry 27 quando os dois saíam para pescar. O ilhéu ensinou o piloto-escritor a capturar e a preparar corvina e pampo, entre outros peixes, que eles faziam ensopados e aproveitavam para o pirão (preparado à base de caldo de peixe e farinha de mandioca). Zé Perri também adorava beiju (rosca de farinha de mandioca), iguaria que podia degustar sempre bem fresquinha, pois o pai de Deca tinha engenho. Exupéry manteve contato com Deca por muito tempo. Soube de seu casamento com Chica, aos 23 anos, e do nascimento da maioria de seus 14 filhos. Mais de uma vez convidou o amigo para voar, mas ele nunca aceitou. “Deve ter sido medo”, acredita o filho Getúlio. “Voar era perigoso”. Em 1991, Deca foi homenageado pela Base Aérea de Florianópolis. Recebeu um troféu de agradecimento por ter contribuído com a história da aviação. Quando os franceses administravam o chamado “campo de aviação” do Campeche, ele prestou diversos serviços lá. Deca morreu em 1993, aos 84 anos. Também foi homenageado postumamente por moradores do Campeche, que deram o seu nome, Manoel Rafael Inácio, a uma das travessas da Rua das Corticeiras (ambas são vias de chão batido). Aviadores franceses A viúva de Deca, dona Chica, não se lembra de Zé Perri. “Meu marido falava dele sim, mas não cheguei a conhecer. Deve ser porque o Deca era seis anos mais velho do que eu”. Mas ela se lembra dos vôos de Paul Vachet, também piloto da Latécoère, em busca de um campo de pouso na região. Tinha cerca de dez anos quando o ruído do avião de Vachet quebrava o silêncio quase absoluto que reinava no Campeche e fazia todos olharem para o céu. Lúcida e muito saudável para os seus 86 anos, dona Chica tem ótimas recordações do tempo em que o lugar onde nasceu era habitado por aviadores franceses. Era freqüentadora assídua dos bailes de domingo no hangar da base, e chegou a ganhar vários concursos de dança. “Eu dançava, dançava muito”, gaba-se. Chica tinha uns 15 anos quando um aviador francês, “um galego alto”, quis namorá-la. Chegou a presenteá-la com uma caixa de pó-de-arroz, perfume, um colar e um anel. “Mas ele era grande demais, metia medo. E também não dava porque eu não entendia a língua dele”. A esposa do administrador do campo de aviação, Jeanne Jacquinot, chegou a traduzir algumas cartas desse moço para Chica. “Ele dizia que sentia a minha falta, que queria me levar para a França”, conta. Mas ela ficou. Aos 17 anos, casou-se com Manoel Rafael, o acordeonista dos bailes da base. Tiveram oito filhos e seis filhas, que deram origem ao surpreendente número de 210 descendentes entre netos, bisnetos e tataranetos. “É povo, né?”, comenta. Quase todos os poucos habitantes do Campeche dos anos 20 e 30 se envolveram com as atividades do campo de aviação. Eles foram contratados pelos franceses para tarefas como segurar os lampiões nas noites de pouso de aeronaves, enviar e receber mensagens radiotelegráficas, cozinhar e lavar louça, lavar roupa etc. Também era necessário levar alguns lampiões para o morro em frente ao campo, até hoje conhecido como “Morro do Lampião”, para evitar acidentes com as aeronaves. Uma das pistas de pouso do campo de aviação, segundo Getúlio, foi palco do final feliz do primeiro vôo noturno da América do Sul, que começou no Rio de Janeiro e terminou no Campeche. O autor da façanha foi Jean Mermoz, outro francês legendário na aviação civil internacional. Investigando a história Há quatro anos, Getúlio investiga a história da aviação em Santa Catarina. Logo que começou os trabalhos, procurou ajuda da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) para escrever um livro sobre o tema. O reitor Raimundo Zumblick designou o professor Mário Moraes para coordenar os trabalhos. Moraes conta com o auxílio da jornalista Márcia Barreto (que também tem um envolvimento pessoal com a história, pois seu avô foi radiotelegrafista no campo de aviação). A idéia é lançar a obra em junho, no centenário do nascimento de Saint-Exupéry. Uma boa parte da pesquisa baseia-se nos depoimentos de 36 moradores idosos do Campeche selecionados por Getúlio. “São pessoas que tiveram alguma relação com os franceses que moravam aqui”, explica. Nenhum deles, porém, teve contato direto com Saint-Exupéry – ou, se tiveram, foi rápido e não se lembram mais. Os únicos a conviver com o escritor teriam sido o pai de Getúlio e mais duas ou três pessoas, todas já falecidas. Uma das pessoas que afirmava ter conhecido Exupéry, Charles Edgar Moritz (antigo curador do Hospital de Caridade de Florianópolis), foi entrevistado por Márcia pouco antes de morrer, já com mais de 85 anos. “Ele contou ter encontrado Exupéry em bailes do Lira Tênis Clube (fica no Centro da cidade e é freqüentado pela elite)”. Moritz não pôde provar o que disse sobre Exupéry, segundo Márcia, “mas pudemos comprovar com documentos quase todas as outras informações que nos passou”. A pesquisa não se concentra somente em fatos relacionados às vivências do famoso autor de O Pequeno Príncipe na Ilha de Santa Catarina. A idéia é resgatar a passagem dos franceses por Florianópolis e sua decisiva influência sobre a aviação local. Afinal, foram eles que descobriram, além do aeródromo natural do Campeche, o da Ressacada, a cerca de 15 quilômetros dali, onde hoje existe o Aeroporto Internacional Hercílio Luz. E a influência dos franceses na cultura florianopolitana transcendeu a aviação. Um fato curioso a ser contado no livro, conforme adianta Márcia, é que para a instalação do campo de aviação do Campeche foi necessário realizar uma espécie de “casamento em massa” entre os casais locais. Eles não tinham o hábito de se casar com registro civil; bastava-lhes a bênção da Igreja. E também não tinham escritura pública dos terrenos, somente a posse. Mas, para que a Latécoère pudesse comprá-los, era necessário um contrato de venda com o consentimento de ambos os cônjuges. Daí a necessidade da legalização das uniões. “Um juiz deslocou-se do Centro até o Campeche para realizar esses casamentos”, conta Márcia. As mulheres francesas ensinaram as nativas a fazer hortas de fundo de quintal, e também chocaram os moradores do Campeche com seu hábito de tomar banho de mar de maiô, até então desconhecido na Ilha de Santa Catarina. No máximo, as pessoas caminhavam na praia, de roupa, mas ninguém tomava banho de mar, nem no verão. Outra “excentricidade francesa” foi protagonizada pelo último administrador do campo de aviação, Monsieur Joseph Jacquinot. Ele costumava caçar jacarés então existentes na lagoa do Campeche – e os comia! Jacquinot chamava ainda mais a atenção porque ia caçar todo paramentado, usando calças curtas, chapéu, bota e espingarda. Era uma figura um tanto esdrúxula para os pescadores. Em 1939, os franceses precisaram retornar à pátria para ajudar a combater Hitler, mas o aeródromo do Campeche continuou funcionando até 1949, operado pela Pan Air do Brasil. Criado em 1927, o aeroporto que não existe mais foi o primeiro de Santa Catarina de onde também embarcavam passageiros.
Silvana Pisani, especial para o JT |
Cheia - 02
Minguante - 09
Nova - 16
Crescente - 24 Crôa: baixio, lugar raso no mar.
...rapazi, o parati tá grosso na crôa...