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Povoado por açorianos, o lugar foi no passado grande produtor de farinha de mandioca
Debora Sanches
A primeira pergunta que passa pela cabeça do visitante que vai até a comunidade do Saquinho é: como descobriram e por que foram para lá os primeiros habitantes? Hoje o acesso ao local está mais facilitado devido ao calçamento da trilha que liga a comunidade à praia da Solidão. Porém, esta trilha é a única ligação do Saquinho com o resto do mundo.
Povoado desde o século 18 pelos imigrantes açorianos, o lugar já foi um grande centro produtor de farinha de mandioca, açúcar e cachaça. Alguns engenhos, que marcaram o período mais próspero da região, ainda estão em pé. Entretanto, a terra nunca foi boa para a agricultura, e a pequena praia do local não oferece abrigo necessário aos barcos de pesca, ficando esta atividade apenas para o consumo de seus moradores.
Não há energia elétrica, muito menos água encanada (os eletrodomésticos funcionam a bateria, e a água é recolhida diretamente de um córrego que desce do Morro do Trombudo). O acesso, apesar de calçado, se faz por entre subidas e descidas no meio da mata e para tudo os moradores do Saquinho dependem das comunidades vizinhas. Porém, quando questionados se trocariam a vida no Saquinho pela civilização, a resposta é um veemente não.
A comunidade está localizada ao Sul do Pântano do Sul, praticamente dentro da mata atlântica e há alguns anos a área foi considerada de preservação permanente. Ao todo são dezesseis casas, mas apenas quatro famílias possuem residência fixa no local. Há nove anos, Marli Maratigo casou com um nativo do Saquinho e se mudou de mala e cuia para lá. Recentemente, ela montou um restaurante na varanda de sua casa, e nos meses de julho a setembro o local é um dos melhores pontos para a observação das baleias que visitam a costa sul da Ilha de Santa Catarina.
Para ser atendido no restaurante basta bater palmas que Marli vem sorridente anotar o pedido. Ela diz que viver em um lugar como o Saquinho exige certos sacrifícios, mas não troca por nada a vida que tem. "Nosso carro é o nosso cavalo que traz para cá todos os mantimentos que precisamos. Em época de aula faço a trilha todos os dias para acompanhar meu filho. Temos algumas dificuldades, mas conviver com esta paisagem não tem preço", diz Marli apontando para a baía onde no verão é comum ver golfinhos.
Há cerca de quatro anos o aposentado Isauro Pereira comprou do cunhado uma pequena casa de madeira no Saquinho se que é a sua residência durante o verão. "Só saio daqui para fazer compras ou acertar algum negócio urgente na cidade. Neste local tenho a paz que pedi a Deus". Seu Isauro faz questão de mostrar a Santa Cruz da localidade. É em torno dela que do dia dois para o dia três de maio acontece a única festa anual da região, a Festa de Santa Cruz.
O arquiteto Tagore Pereira, há 15 anos morador de temporada do Saquinho, se diz preocupado com a quantidade de pessoas que passaram a visitar o local nos últimos anos. O que mais irrita o arquiteto é a falta de respeito e educação de certos visitantes. "Não temos o serviço público de coleta de lixo, somos nós mesmos que fazemos isso e acredito que ninguém aqui da comunidade quer ver esse espaço deteriorado. Para que ele se mantenha preservado precisamos da colaboração de todos, principalmente dos visitantes", diz.
A primeira providência dos colonizadores portugueses que pretendiam formar uma nova comunidade era erguer uma cruz. O objetivo deste marco, além da proteção divina, era o de consolidar a fundação e de delimitar o espaço físico de um novo povoado. As cruzes também eram utilizadas como altar para novenários e celebrações variadas, além de fornecer proteção contra seres fantásticos, como as bruxas e os lobisomens.
Quase todas as comunidades do interior da Ilha de Santa Catarina possuem Santas Cruzes, porém, nenhuma é tão completa em seus significados como a Santa Cruz do Saquinho, que possui em sua simbologia todos os elementos da paixão e morte de Cristo. As Santas Cruzes constituem um dos marcos histórico-culturais mais antigos e significativos da colonização açoriana na Capital. A Santa Cruz do Saquinho, erguida no começo do século 20 por missionários que estavam a pregar a fé católica, é um importante elo com o passado cultural e religioso da Ilha.
Rara beleza
Ainda pouco explorado, o Saquinho proporciona bons momentos a quem segue sua trilha
Fonte: Especial para o Jornal A Notícia - AN Verão
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