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Ribeirão da Ilha - Herança cultural
Freguesia mantém tradições açorianas e cria nova opção gastronômica com a produção de ostras

Felipe Nunes

A Freguesia do Ribeirão, no Sul da Ilha, é um paraíso tropical que parou no tempo. Sua população de 2,8 mil habitantes, a maioria de origem açoriana, ainda preserva a herança dos antepassados como a pesca, a colheita da ostra na pedra e a confecção de canoas artesanais. As construções das casas em estilo luso-brasileiro, a Igreja Nossa Senhora da Lapa, inaugurada por Dom Pedro II, erguida à base de pedra e óleo de baleia, despertam a curiosidade dos visitantes e pesquisadores. “Amo o meu Ribeirão”, comenta a moradora mais antiga da comunidade, Nilza de Souza Damásio, 83 anos.

Mãe de quatro filhos, a “manezinha da Ilha” é o retrato do povo do Ribeirão, conhecido por sua longevidade. Só na comunidade, segundo ela, existem 98 viúvas, que apesar da idade são jovens em espírito e nos traços açorianos.

Em 1720, José Vargas Rodrigues veio da Ilha dos Açores de Portugal com caravelas para a Freguesia. O português trouxe com ele 30 escravos e muitos pombos-correio para se comunicar com sua pátria. Em uma das cartas enviadas à Europa, ele informava aos açorianos: “Venham, muita terra, muito peixe”. Rodrigues trouxe com ele a imagem da Santa Nossa Senhora da Lapa, padroeira da localidade, e os altares para a Igreja. “Nossa Igreja é muito bela. É nosso cartão- postal”, acrescenta Nilza.

A moradora mais antiga da comunidade se preocupa em manter as tradições dos colonizadores. Ela lembra que a única mudança foi a troca da pescaria pelo cultivo de ostras. “As ostras vieram para salvar os pescadores”, acrescenta. Atualmente, na Freguesia existem 60 criadores.

Com um rancho à beira da praia, o policial militar José Ferreira da Silva, 44 anos, o Zé Bagrinho, divide seu tempo entre a maricultura e seu trabalho no Estado. “Criar ostras é uma alternativa para aumentar a renda e um lazer”, ressalta. Toda sexta-feira ele carrega seu caminhonetão e sai para as entregas em restaurantes, peixarias e os clientes particulares. Neste ofício toda a família ajuda, principalmente a mulher Neuza. Todo o material utilizado para o cultivo, como as lanternas e parreiras, Zé Bagrinho faz. “Aprendi com meus pais”,ressalta. Na temporada a renda familiar ganha um reforço de R$ 6 mil. Para garantir sua produção anual de 500 mil ostras, Zé Bagrinho trabalha duro, mas sua labuta diária é compensada pela natureza em sua volta e o silêncio da Freguesia, onde é possível sentir o barulho do vai e vem das águas e o canto dos passarinhos.

Além da peculiaridade de seu povo e da beleza de sua natureza a Freguesia é guardiã do Ecomuseu do Ribeirão da Ilha. Neste passeio pela história, os visitantes têm a oportunidade de conhecer como era a chácara dos açorianos, seus engenhos de mandioca com casas da arquitetura luso-brasileira do século 18. Dentre os objetos o museu guarda o presépio açoriano mais antigo do Estado, elaborado em 1780 por uma escrava que usou como materiais conchas, escamas e óleo de peixe. Neste presépio, misturou características da umbanda, como Ogum e mães de santo ao catolicismo.

Fonte: Jornal Diário Catarinense - O DC - 19/12/2001
 
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